Biblioteca Gonzalo de Berceo Monasterio de Alcobaça en Portugal.

 


 

O Alc. 149 da Biblioteca Nacional de Lisboa não constituí um todo homogéneo, nem sob o ponto de vista material nem quanto ao conteúdo. Todavia, se exceptuarmos uma pequena Ars accentualis, no final do códice1, deve de ser incluído entre os Marialia criados e divulgados no decurso dos séculos XII e XIII.

A natureza, finalidade e utilização destas compilações medievais ficam claramente expressas por Evelyn Faye Wilson, no estudo introdutório à edição do Stella Maris de João de Garlanda: «The title Mariale is defined in the tirteenth century as a collection of materials in praise of the Virgin, a sort of anthology or summa of Mary lore. Such volumes were useful in the monasteries and churches as sources of readings for Saturdays and the celebration of great festivals of Virgin Mary. Some of the collections already described include scattered materials other than legends. The collection of St. Victor interpolates among the miracles the De Transitu of Melito of Sardis and a Commentary on a sermon of St. Bernard»2.

Como se verá pela descrição do conteúdo, até pelo tipo de textos, o nosso códice coincide com o do convento de S. Victor em Paris, que acabou de ser referido. E o facto de existirem diferenças codicológicas entre as duas unidades principais (como se reconhecerá pela análise feita adiante) não obriga a considerá-lo, na sua forma actual, como resultado fortuito de época posterior à elaboração de tais unidades.

Muito embora, na verdade, se possam assinalar variantes de empaginação, regramento, módulo de letra e decoração, haverá também a reconhecer que, por um lado, para aglutinar tais unidades, não foi preciso sacrificar as dimensões do formato inicial, e que, por outro lado, as diferenças de decoração, por ex., (mormente nas ornamentações florais) se inscrevem em desenlio, colorido e estrutura comuns. A mesma expressão de piedade mariana, de resto, percorre uma e outra unidade e está patente no apuro caligráfico para transcrever o nome de Maria3.

Se, como parece provável, a aglutinação de materiais diversos não obedeceu a um plano primitivo (já que textos de natureza idêntica como os poemas marianos se encontram separados por um bloco central), a correspondência existente entre os diversos textos permite estabelecer uma linha de continuidade e estudá-los em conjunto. Faltará sem dúvida uma unidade rigorosa; no entanto, também não há repetições, o que, supondo compilação, exclui, sem outras provas, mera agregação de materiais (de cadernos ou de textos).

O interesse do estudo deste códice radica tanto nos textos que nele figuram como na ordenação em que se encontram. O ineditismo de alguns deles pouco poderá significar no elenco dos textos latino-medievais marianos4. Já, porém, a sequência de milagres, por ex., permite estabelecer relações com outras compilações do género. Que assim vamos encontrar um Transitus Mariae em versão não documentada noutros lugares será mais um contributo para conhecer e testemunhar a reelaboração de textos na Idade Média, sobretudo quando corriam sem nome de autor. Mas que a sequência da primeira colecânea de milagres da Virgem Maria corresponda, com ligeiras diferenças, à dos Milagros de Nuestra Señora de Gonzalo de Berceo é um dado de não somenos importância5.

Nada nos garante que a elaboração deste códice, nas suas partes primitivas, possa dever-se ao scriptorium de Alcobaça. Ao silêncio dos testemunhos (i. é qualquer referência explícita) apenas podemos opor a diversidade de mãos, que supõe a intervenção de varios escribas (copistas, correctores e iluminadores), trabalhando sucessivamente, perspectiva que não podemos confiadamente estender a Alcobaça.

A pequeña Ars accentualis, porém, é redigida nesse mosteiro por alguém que se diz ser Fr. Martinus Scolaris Alcobatie6 e deve ter vivido nos começos do séc. XV. A aglutinação do caderno em que está incluída ao resto do códice deve ter ocorrido posteriormente a esta data, talvez muito próximo do ano assinalado na observação deixada no fol. 12r que diz: «para uso da Livraria de Alcobaça, 1578».

Mas mais que adiantar juízos de valor ou interpretações possíveis convirá certamente determo-nos na análise do próprio códice.

 

I.- Análise codicológica

Uma encadernação tardia, de cartão coberto a pele, aglutina um códice de certo modo heterogéneo, composto de 21 cadernos e 171 fólios de pergaminho, cujas dimensões máximas são respectivamente: 283 (271) X 185 (175) X 40mm.

A diversidade de cadernos pode documentar-se numa esquematização gráfica da sua estrutura e dos vários elementos de identificação:

Fácil é reconhecer neste esquema três blocos codicológicos: A, fols. 1-20; B, 21-161; C, 162-171. O bloco central constitui um todo individualizado, de teor uniforme e marcas precisas, ainda que nem todos os elementos se registem em cada uma das unidades. A estrutura codicológica é o quaterno, e apenas há a assinalar a ausência de 1 fol. no primeiro e nos dois últimos cadernos. Ausência porventura significativa quanto àquele, pois talvez com ele tenha desaparecido o prefácio que, à semelhança do que acontecia noutras compilações da mesma natureza, antecederia a série de milagres que aqui figuram. Falta também, a inicial do texto [F]uit; é algum tanto estranho, para o estilo de decoracão do códice, nomeadamente, que com ela se preenchesse um fólio isolado. Desatenção do copista, que mais tarde o iluminador não pôde remediar?

Quanto à discriminação dos cadernos, neste bloco central, repare-se como o reclamo alterna, salvo uma excepção, com a assinatura correspondente. Por outro lado, estas marcas.apenas existem enquanto prossegue o texto dos milagres, deixando de existir quando se passa para outros textos. Tal regularidade manifesta-se também na escrita que pode fácilmente ser atribuída apenas a uma mão.

O bloco inicial (fols. 1-20) apresenta uma estrutura codicológica, menos homogénea, aglutinando um senio (a que faltam os 2 fols. iniciáls) com um quinio, unidade que apenas vamos encontrar no caderno final (fols. 162-171).

À diferença de estrutura material corresponde a diferença de conteúdo, e, pelo menos quanto ao quinio final, também uma mudança clara de mão.

As variantes de mão podem também, e ainda que numa análise meramente aproximativa, apontar-se na seguinte ordem de sucessão: a) l-7v; b) 7v-10; c) ll-12r; d) 12v-152v; c) 152v-155v; e) 156r-160v, f) 161r-161v; b) 161v; g) 162-168v; h) 168v-171v. Reconhecemos assim um bloco central preenchido por d) antecedido e seguido por grupos redigidos por mão idêntica. Não sendo isto totalmente coincidente com outras características codicológicas, apenas podemos reconhecer que tal bloco central coincide, de um modo geral, com a compilação de milagres; o resto engloba particularmente os textos poéticos. Se é permitida uma conclusão, poderemos fazer notar que, não coincidindo a alteracão de mão com a mudança de unidade codicológica, há que admitir continuidade na sequência do trabalho de redacção e muito provavelmente identidade de scriptorium.

Em qualquer dos blocos se pode depreender intervencãó de vários copistas, mas enquanto para o primeiro e para o segundo o registo de escrita se deve considerar simultâneo (o que remete a elaboração do códice para um scriptorium que pode contar com vários escribas que se sucedem nas suas tarefas), já para o último se há-de admitir modalidade diferente, correspondente, de resto, com o novo tipo de textos que aí figuram.

O regramento (não aparente no primeiro caderno, mas sim nos restantes) revela variantes que podem ser documentadas no quadro seguinte:


fol. 1: 1 col. 22 LL/ 17. 127. 32 (176) X 187 UR = 8,904
fol. 8: 1 col. 46 LL/ 23. 127. 32 (182) X 196 UR = 4,355
fol. 11: 1 col. 37 LL/14. 114. 49 (176) X 189. UR = 5,25
fol. 23: 1 col. 22 LL/20. 195. 55 (180) X 185 UR = 8,809
fol. 139: 1 col. 22 LL/18. 115. 42 (175) X 187 UR = 8,904
fol. 153: 1 col. 35 LL/ 20. 121. 42 (183) X 204 UR = 6
fol. 156: 2 col. 27 LL/ 20.56. 5. 56. 43 (178) X 192 UR = 7,384
fol. 163: 1 col. 25 LL/ 22. 112. 34 (168) X 181 UR = 7,541



Traduz-se neste quadro um preenchimento gráfico claramente diferenciado. No entanto, não parece que se deva atribuir à alteração do número de linhas e módulo de letra qualquer outro significado que não seja o de economizar suporte material para escrever o texto.

Algum interesse poderá apresentar a distribuição do texto em duas colunas no bloco central (fols. 156r-161v). Tal variante corresponde a alteração do módulo de letra e à supressão de títulos para os poemas marianos. Representará isto talvez uma fase posterior de redacção, mas não se torna possível determinar, o momento, nem será fácil estabelecer uma relação directa com o primeiro bloco, pelo facto de também ali faltarem os títulos dos poemas.

Relação entre os dois blocos poder-se-á descobrir certamente no tipo de ornamentação floral comum a um e a outro, particularmente nas vinlietas de iniciais que se estendem até ao fundo das páginas em renques diversos (fols. 11r, 12v, 23v, 154r).

A alternância de cores nos títulos manifesta certamente uma variante de estilos; em 12v, temos vermellio, azul, verde; em 24v, vermelho, negro; em 33r, o título é já a vermelho apenas.

A data do códice tem de ser deduzida do tipo de letra, o gótico redondo, para os dois primeiros blocos, pelo que o poderemos situar no séc. XII/XIII. O caderno final, porém, apresenta variante nítida de escrita, particularmente na qualidade do traço e no colorido da tinta, mas, mantendo-se ainda dentro do gótico, será possível atribuir-lhe uma data que não vá muito além do séc. XIV.

Estaremos assim em condições de concluir, pelos aspectos externos, que o códice resulta de uma aglutinação de materiais que, não sendo plenamente homogéneos, permitem encontrar afinidades várias entre os componentes principais e apontar para eles, que são também os elementos primitivos do códice, uma origem comum e uma associação inicial, anterior, portanto, à junção com a unidade final, a qual poderá presumivelmente ter sido acrescentada apenas quando da encadernação actual.


II.- O conteúdo

Apontámos já que o Alc. 149 constitui um Mariale, en tudo conforme com este tipo de obras divulgado pela piedade mariana medieval nos séculos XII e XIII. E sublinhámos igualmente que se a importância do códice procede algum tanto do ineditismo dos seus textos, ela advém sobretudo da forma como eles estão ordenados.

Poucos textos são atribuídos aos seus autores (reais ou fictícios, entenda-se). Mas aqueles cuja autoria é possível identificar mais imediatamente situam-se no séc. XI, data não muito longínqua da propria redacção do códice.

Entre esses autores conta-se Hugo Farsito, com o Libellus de miraculis B. Mariae Virginis in urbe Suessionensi, Bernardo de Morías (ou de Cluni), Adão de S. Vítor, Marbodo de Rennes (ou de Angers), Godofredo de S. Vítor (ou de Breteuil).

Algumas per das de fólios fizeram desaparecer possivelmente algumas peças significativas para estabelecer uma relação imediata com códices semelhantes, ou até para determinar a origem do códice. Que conteria, por ex., o 1.° folio do actual 3.° caderno? Um prefácio semelhante ao da colectânea de milagres de S, Victor de Paris (Ad omnipotentis Dei laudem) ou um outro que aparece na compilacãó de S. Germain-de-Près (Quoniam gloriosissima Virgo virginum)?7 Não deixa contudo de causar alguma estranheza que se tenha omitido a inicial do nosso texto. Se ela, ocupava todo o verso de tal fólio (que serviria também de guarda inicial), tal arranjo era claramente singular no conjunto do códice.

Na descrição que fazemos seguidamente do conteúdo do códice, além dos títulos aponíamos também o incipit de cada obra para melhor identificação e referenciação. Nos Miracula, remetemos para o número de ordem do Miraculorum B. V. Mariae quae saec. VI-XV latine conscripta sunt Index de Alb. Poncelet8. Nos hinos, a referência é, como se impunha, a dos Analecta Hymnica Medii Aevi9.

1r.- Verba Sancti Hildefonsi ad Beatum Virginem Mariam. Domina mea, dominans mihi, mater Domini mei, ancilla filii tui, genitrix factoris mundi (PL, 96, col. 58) .

4r.- Quadruplex ratio potest assignari quare B. Virgini in sabbato potius honor exhibetur quam aliis diebus. Prima ratio est quia B. Virgo in sabbato in quo Deus fuit in sepulchro in fide stetit apostolis discedentibus.

4v.- [Transitus Mariae] Temporibus illis cum esset sancta Dei: Virgo Maria diebus ac noctibus uigilans et orans post ascensionem Domini, uenit ad eam angelus Domini de celo, dicens ei: Maria surge et accipe palmam quam tibi detuli quia post tres dies assumam te.

7v.- [Sermo supra Missus est angelus] Quotiens Beatam Virginem extollendam recolo et meam fragilitatem attendo in eius laudem aliquid dicere pertimesco. Fuit enim electus angelus qui eam salutaret.

11r.- Imperatrix reginarum / et saluatrix animarum?
Angelorum / et celorum / dominatrix
.

11v.- Planctus ante nescia / planctu lassor anxia (a. Godefridus S. Vicitoris; AHMAE, 20, n.° 199)

12r.- Summi regis factura / salue preciosa.

12v.- Incipit sermo beati Iheronimi presbiteri ad Chromatium et Eliodorum de natiuitate Marie semper Virginis. Incipit prologus eiusdem. Petistis a me ut uobis rescribam quid mihi de quodam libello uideatur qui de Beate Marie natiuitate a nonnullis habetur (Ps. Hieronymus, PL, 20, col. 372; 30, col. 297-305)

19v.- De uiris et filiabus Anne matris Dei Genitricis Marie. Hystoriarum ueterem si uersificando sequemur / tres tribus Anna uiris legitur peperisse Marias / (H. Walther, 19420; 19386).

Aliud de uiris ac filiabus eiusdem Anne matris Beate Virginis Marie.

20r.- Gloriosa mater Christi, nata ex patre nazareno, nomine Ioachim. Matre uero bethleemita nomine Anna.

21r.- [Liber de Miraculis B. Marie Virginis]

21r.- [F]uit in Toletana urbe quidam archiepiscopus qui uocabatur Hyldefonsus, religiosus ualde et bonis operibus ornatus (MBVM, 590).

22r.- De monacho per Beatam Mariam de utraque morte liberato. Erat quidam monachus in quodam cenobio secretarii funtus offitio. Hic ergo ualde erat lubricus et demoniacho instinctu aliquotiens libidinis urebatur estibus (MBVM, 468).

23v.- De clerico B. Marie deuoto, in cuius ore iam mortui flos inuentus est. Quidam clericus in Carnotensium urbe degebat qui erat leuis moribus seculi curis deditus, carnalibus etiam desideriis ultra modum subiectus (MBVM, 1357).

24v.- De eo, qui gaudii quod B. Marie precinebat particeps per ipsam factus est. Alter quoque clericus in quodam loco commorabatur qui et ipse deo et eius alme matri satis erat deuotus. (MBVM, 69).

25r.- De uoce qua misericordie mater pauperi suo presens respondit. Vir quidam pauper, degebat in quadam uilla qui cum egeret stipe quotidiana per plura loca pergebat (MBVM, 1761).

26r.- De jure suspenso quem B. Virgo, liberauit. Sicut exposuit Gregorius Papa de Septem stellis pliadibus quo se quidem non contingunt [...] Fur erat qui uocabatur Ebbo; multociens res alienas rapiebat (MBVM, 1651, 671)

27r.- De monacho qui mentis B. Virginis ad agendam penitenciara reuixit. In monasterio Sancti Petri quod est apud urbem Coloniam erat quidam frater cuius uita et mores nimis ab habitu monachili discrepabant (MBVM, 819).

28r.- De eo qui pudenda, sibi et guttur abscidens per B. Marie iussum uite redditus est. Neque hoc silere debemus quod Beate memorie dominus Hugo abbas Cluniacensis ecclesie solet narrare de quodam fratre sui monasterii. Idem uero frater Girardus dicebatur. (MBVM, 1150).

29v.- De presbitero qui non nisi B. Marie missam cantare sciebat. Sacerdos quidam erat parrochie cuiusdam ecclesie seruiens honeste uite et optimis studiis preditus sed litterarum scientia non plene imbutus. (MBVM, 1604).

30v.- De eo cui B. Virgo precepit ut singulis diebus sibi cantaret pasalmum betati immaculati. Erant duo fratres in urbe Roma quorum unus uocabatur Petrus admodum prudens et strenuus ecclesie Sancti Petri archidiaconus sed auarus. (MBVM, 413

32v.- De monachus qui ad horas B. Marie non sedens per solam eam deuotionem saluatus est. Apud ciuitatem que Papia dicitur in monasterio Sancti Saluatoris fuit quidam monachus qui erat prior ipsius monasterii constitutus (MBVM, 9)

34r.- De clerico papiensi qui electione B. Marie promotus est in pontificem. In supradicta urbe fuit quidam clericus qui uocabatur Iheronimus morum probitate ualde decoratus qui sancte Dei Genitrici ualde placere studebat (MBVM, 862)

34v.- De linteolo post infectione, per Matrem candoris candidato. Sancti Michaelis arcangeli nomine consecrata quedam est ecclesia que Clusa ab incolis est nuncupata (MBVM, 161)

35v.- De uelamine ymaginis et de flabello prope posito quem ignis circumseuiens nec saltim obscurauit. Est et alia ecclesia in honore sancti Michaelis in monte qui dicitur Tumba in periculo maris. In hac monachorum multitudo sub regulari institutione famulatur Deo (MBVM, 491)

36r.- De clerico qui uxorem et omnia reliquit propter Beatam Mariam. In territorio ciuitatis qui dicitur Pisa erat quidam clericus ecclesie Sancti Cassiani canonicus (MBVM, 866)

37r.- De muliere qui sensum amissum recepit. Miraculum me referre non piget, minimum quidem quantum ad Sancte Marie meritum sed tamen et magna et minima ad laudis eius cumulum referri miracula nulli debere esse honerosum que est refugium miserorum (MBVM, 1092, 1293)

38v.- De puero quem Beata Virgo illesum in fomace seruauit. Contigit quondam res talis in ciuitate Bituricensi quam solet narrare quidam monachus Sancti Michaelis de Clasa nomine Petrus, dicens se eo tempore illic fuisse (MBVM, 234)

39v.- De ultione pariter et miseratione quam Beata Virgo in quadam exercuit. Sicut ex iam relatis de Sancta Dei Genitrice miraculis plurimis possunt intelligere legentes quiue sanctam eandem Mariam magne pietatis esse (MBVM, 1649, 1727)

41v.- De matrona cui per Beatam Mariam omnia superabundauerant. Asserunt antiqui relatores Britanniam dictam maiorem ad instantiam minoris que partes incolit occidentis fore pre omnibus terris opulentam onmibus diuitiis (MBVM, 120)

42v.- De imagine quam iudei crucifigere deliberauerunt. Ad excitanda humilium corda ut percipiant gaudia celestia sub breuitate sermonis ut in prouerbio dicitur in paucis contringere multa [...] In Toletana urbe cum ab episcopo in die Assumptionis sancte Virginis Marie (MBVM, 16, 833)

43v.- De quadam muliere que liberata est per Beatam Mariam de periculo mortis. Piissimo sancte Dei Genitricis miraculo in ipsis aeriis spiritibus patrato [...] In loco qui Tumba dicitur quedam ecclesia in honore Sancti Michaelis archangeli honorifice admodum constructa est (MBVM, 1210, 811)

46r.- De quodam monacho per Beatam Mariam tribus uicibus a diabolo liberato. Olim fuit quidam monachus in quadam monachorum congregatione quem Domina nostra suum familiarissimum esse tali modo dignata est ostendere (MBVM, 1187)

48r.- De puero quem ipsa Domina a mortuis suscitauit. In Gallie partibus est quoddam monasterium in honore et nomine Beate prefate Virginis dedicatum [...] Inter quos cuiusdam uxor predicti monasterii frequentius limina terere ibique uigilias solebat celebrare (MBVM, 790)

49r.- De quodam episcopo. Moris erat sancto Dunstanno loca sancta quando Cantuarie morabatur, uno tantum fideli socio comitatus, noctu peragere (MBVM, 1117)

50r.- De eodem. Alio item tempore prefata pastorum ecclesie limina simili hora pari uoto requirens inde discessit, memoratam sacratissime Virginis eadem preces illic deo fusurus adire cepit (MBVM, 45)

50v.- De quadam abbatissa quam nostra misericorditer Domina a maxima angustia liberauit. Celebre est ad illum medicum certatim currere languentes quem marte sua tam potentem cognouerint ut morbis omnibus idoneus sit subuenire [...] Fuit igitur ut ueracium fideli relatione uirorum refertur quedam sanctimonialium, spiritualis mater que abbatisse officium et nomine et actione tenebat (MBVM, 164,562)

55r.- Quomodo homo quidam mersus in mare auxilio Sancte Marie sit liberatus. Duo Beate Dei Genitricis Marie miracula narrare disposui quorum unum unius alterum alterius cuiusdam religiosi abbatis relatione agnoui [...] Erat nauis in medio maris Mediterranei peregrinis onusta, quorum deuotio orationum partes Iherosolimitanas adhibat (MBVM, 384, 417)

57v.- De quodam abbate. Aliud quoque Sancte Dei Genitricis Marie miraculum narro quod ab ipso didici abbate [...] Fuit enim aliquando in medio maris Britanici nimia cum aliis multis oppressus tempestate adeo ut de uita omnes cogerentur desperare (MBVM, 59, 557)

59r.- De quodam monacho. Quidam uir religiosus erat qui Sanctam Dei Genitricem ualde diligebat ac eius seruitium preter Completorium diligenter cotidie decantabat (MBVM, 1520)

60v.- De quadam imagine Domini nostri Ihesu Christi que testimonium peribuit cuidam christiano. Fuit quidam religiosus Leodicensis ecclesie archidiaconus qui orationis studio sanctorumque locorum uisendorum gratia multa peragrans loca, Bizanteam tandem deuenit ad urbem (MBVM, 646, 559)

63r.- Publica Theophili penitencia et satisfacio qui Christum abnegauit et ueniam Beate Marie inteuentu promeruit. Factum est autem priusquam incursio fieret in romana republica execrandae Persarum gentis fuisse in una ciuitate Ciliciorum secunda regione quendam uicedominum sancte Dei ecclesie nomine Theophilum (MBVM, 517 bis; BHL, 8121)

74v.- De quodam infirmo. Sacrossancta sancte Marie Dei Matris preconia [...] Cum aduersis gentibus et plurimis nationibus locorum innumerabilium in urbe Viuaria gratia sanitatis recuperande (MBVM, 1609, 261)

75v.- De puella nomine Musa cui Virgo uirginum cum uirginibus apparuit. Non est silendum quod Probus Dei famulus de sorore sua Musa nomine puella parua narrare consueuit (MBVM, 1161)

76r.- De infirmo cui Beata Virgo quia ipsa esset mater misericordie dixit. Sicut iterum audiui, fuit quidam infirmus qui infirmitatis sue doloribus multum grauatus iam non ad aliud ualebat intendere (MBVM, 1653)

78r.- De quadam ymagine Beate Marie que uelud in marmore picta est. In Libia etenim ciuitate que proxima est ciuitati que uocatur Diospolim est ymago quedam sancte Dei Genitricis semperque Virginis Marie (MBVM, 808)

79r.- De ipsa ymagine Virginis et ipsa non est hominis manu facta sine effigiata. In sancta Getsemani que inter Ierusalem et Montem Oliueti in medio est posita ubi monumentum Beate Marie adest ubi ipsa sepulta est (MBVM, 858)

79v.- De infirmo cui Beata Virgo lacte suo labia rigauit; dixit enim quoscumque sibi deuote famularent uitam habituros. Frater quidam qui in cenobio quodam militabat celorum Domino Dei Matri tanquam et filio decreuerat seruire sedulo (MBVM, 540)

81v.- De monacho qui morte subitanea defunctus dixit se adeptum misericordiam per Matrem misericordie. Olim erat cognitus / alter quidam monachus / in illa prouintia / que fertur Burgundia (MBVM, 1186)

85v.- De sanctimoniali que liberata est a pena per Beatam Mariam. Quedam sanctimonialis / sicut fertur fuit talis / in conuentu feminarum / Christo famulantium [...] Diabolus suasit illi uisere Dei precepta spernere, uirginitatem perdere quam seruabat (MBVM, 1307)

88r.- De quodam uiro qui relicta uxore cuidam adhesit adultere. Fratres operamini / neque seducamini [...] Sponsus quidam ocio / uacabat assiduo / forte, formosissimam / uidit semel feminam, / uidit et continuo / igne feruens nimio (MBVM, 545, 1674)

90r.- De clerico quem ab insano amore puelle remouit amor Beate Marie. Huc uenite et audite / omnes serui Domini [...] Presul quondam erat quidam / qui habebat clericum / quem amabat et fouebat / sicut suum filium (MBVM, 705, 1230)

93v.- De presule qui iussu Beate Marie in conuentu sanctorum Spirituum missam celebrauit. Presul erat Deo gratus / ex Francorum gente ortus / Bonus erat ei nomen / quod designat bonum omen (MBVM, 1226 bis; BHL, 1420)

95v.- De illa ymagine Beate Marie picta tabula de qua oleum manauit. De illa autem uere incontaminata Virgine Maria oportunum putamus simpliciter caritati uestre [...] explicare [...] In ciuitate Constantinopolitana iudeus (MBVM, 324, 878)

96v.- Sermo dulcissimus in quo et miraculum de sabbato Beate Marie dedicato. Sollemnem memoriam Sancte Marie matris Domini decet filios ecclesie sollemniter et officiosissime celebrare quippe cum multis sanctorum concessum sit. (MBVM,1666)

99v.- De miraculo in Chiuiaco acto. Chiuiacus uilla est episcopi Laudunensis ab ipso oppido institucio ferme duum milium distans. In qua uir quidam cum sua coniuge commanens filiam ex ipsa inter alios liberos extulisse dinoscitur (MBVM, 167)

104r.- De eo cui pedem et crux perditum Sancta Maria restituit. In Grannopolitano territorio, uir quidam ex uidua que sibi nupserat priuinum habuerat. Qui dum uitrico bubulci ferret officium, dies beate Marie Magdalene natalis obuenerat (MBVM, 795)

109v.- De quodam locupletissimo milite. Fuit quidam miles nobilitate et dignitate conspicuus et in rebus seculi locupletissimus (MBVM, 632)

[HUGONIS FARSITI, Libellus de Miraculis B. M. Virginis in urbe Suessionensi] (PL, 179, col. 1176-1800)

112r.- Incipit prologus de miraculis Sancte Dei Genitricis Marie. Ad laudem et honorem Beate et gloriose semperque Virginis Marie Genitricis Dei et Domini nostri Ihesu Christi. Temporibus nostris uirtutem mirabilium suorum.

112v.- De ordine iniciali miraculorum. Anno ab incarnatione Domini millesimo centesimo uicesimo octauo.

114v.- De uisis pridie splendoribus. Ex languentibus pridie huius benefitii celitus dari.

114v.- De sanata puella per soccum. Ausum etiam huius generalis muneris postulandi (MBVM, 133)

115r.- De stellis fugantibus caliginem. De tenebrosa caligine per noctem eodem tempore et stellis mire magnitudinis.

115r.- De illa que soccum momordit. Moris erat ut egroti suauitate recepta, per nouem dies ibidem manicarent. (MBVM, 118)

115v.- O quanta deuotio populi. De populi uero deuotione et de concursu et frequentia innumerabili.

116r.- De femina que nasum recuperauit. Unum refero miraculum cuius simile utrum legerim auditum aut uisum in preteritis seculi nescio. (MBVM, 1733, 1132)

118r.- De fabro pérfido sed correpto. Faber ferrarius de pago Laudunensi conuentionem fecerat annuam. (MBVM, 517)

119r.- De puero uisione rapto. Inter initia benedictionis huius celitus effuse quidam puer undenis, peccorum custos. (MBVM, 901)

121r.- De muto per uisionem sanato. Tres muti ad eandem memoriam Beate Virginis aduenerant. (MBVM, 1726)

121v.- Item de alio muto. Vidimus et alium de pago Laudunensi desuper fluuiolum Seram nomine. (MBVM, 1752)

122v.- De bubulco blasphemo et punito. Seruus cuiusdam militis Suessionensis operi rusticano deputatus. (MBVM, 1645)

123v.- De oculo femine sanato et puero contracto et erepto. Femina quedam oculum dolebat et celidoniam seu quaslibet herbas adhibuit ne doleret. (MBVM, 519)

124v.- De surdo et muto Atrabatensi. Quidam surdus et mutus de Atrabatensi pago inteligens quosdam ex illis regionibus. (MBVM, 1511)

125v.- De muto puero Coloniensi et mulier a demonio sanata. Sed et quidam puer natione Coloniensis nutriebatur in pago Beluacensi apud castrum Clarum Montem nomine. (MBVM, 1639)

127r.- De furioso diuite Doacensi. Preterea ex castro quod dicitur Doacus uersus pagum Atrabatensem, quidam furiosus nomine Guarinus. (MBVM, 1231)

128r.- De errantibus reductis ad uiam per Beatam Mariain. Ob hec et alia celeberrima Dei Christi et Virginis Matris fama uulgante miracula. (MBVM, 1181)

129r.- De femina que peperit lapides. Apud uillam que dicitur Rala in territorio Suessionensi que et ipsa est possessio matris ecclesie. (MBVM, 115)

130r.- De paralitico sanato. Quidam paralyticus in porticu eiusdem ecclesie plurimo tempore iacuit. (MBVM, 1465)

130r.- De femina ceca et illuminata. Quedam mulier mater familias de Blericurte que uilla est prope Cociacum. (MBVM, 1292)

131r.- LIBER II. De mulier que ingredi ecclesiam non poterat. Anno incarnatione Domini MCXXXI [die] Luce euangeliste non dedignatus est Deus. (MBVM, 83)

132v.- De inflato mulieris utero festis paschalibus sanato. Apud castrum quod Nigella dicitur in Veromandensi pago situm. (MBVM, 98)

133r.- De infirmo per panem sanato qui soccum tetigerat. Dicite inquit iusto quia bene quia fructum adinuentionum suarum comedet. (MBVM, 349)

134r.- De duobus scutiferis de captione liberatis. Duo pueri scutiferi de pago Laudunensi capti et abducti ultra siluam que Thereschia dicitur. (MBVM, 388)

135r.- De matre qui filium suum reduxit liberum de captituitate. Apud Sanctum Richarium in Pontico qui uicus est in pago Ambianensi cuidam feneratori. (MBVM, 112)

135v.- De femina illuminata. Quedam ceca de Cenomannensi territorio. (MBVM, 1262)

136r.- De Radulfo cantello. Thomas autem dominus castri quod Cotiacuus uocatur. (MBVM, 1671)
(
Miracula XXIX et XXX desunt
).

137v.- De quodam paruulo. Spiris locus est famosus, opulentus, episcopalis; ibi imago adoratur (MBVM, 1671)

138v.- —Quid significet columna nubis in die et ignis in node
—Sunt tria in cibis considerando, primum, quid, quando, quantum commendamus
—Quia obedisti uoci uxoris tue
.

139r.- Incipit epistola Sancti Ieronimi de lapsu cuiusdam uirginis. Puto leuius esse crimen ubi homo peccatuni suum ultro confitetur quam ubi Celans mala.

147r.- Item eiusdem ad uiolatorem uirginis. De te quid dicam o fili serpentis, minister diaboli, uiolator templi Dei.

148r.- Carmen eiusdem puelle. O te uirgo filia Syon.

150v.- De quadam que stulta dicebatur. Narrauit sanetus Basilius. Fuit in quodam monasterio feminarum.

152v.- Oratio ad gloriosam cum laude. O cunctarum / feminarum / decus atque gloria. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, III)

153r.- Oratio ad Virginem matrem cum cantico. Mater Christi / que tulisti. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, V)

153v.- Laus Dei genitricis cum oratione. Salutaris / Stella maris, (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, IV)

154r.- Preces cum laudibus ad Virginem matrem. Aue Virgo / que origo. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, VI)

154v.- Canticum ad laudem Virginis cum prece Matris. Lux sanctorum / spes lapsorum. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, VII)

155r.- Laus gloriose Genitricis cum precibus. Celi porta / per quam orta / salus est fidelium. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, VIII)

156r.- Hodierne lux diei / celebris in matris Dei. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 54, n.° 219)

156r.- Aue mundi gloria / Virgo mater Maria (AHMAE, 54, n.° 254)

156v.- Lux aduenit ueneranda / lux in choris iubilanda (a. Adamus a S. Victore?; AHMAE, 54, n.° 198)

157r.- Sicut pratum picturatur / et uer uernis floribus (AHMAE, 10, n.° 108)

157v.- Madens uellus Gedeonis / et celatum Salomonis. (AHMAE, 8, n.º 69)

158r.- Virgo splendens / que transcendens / electorum ordine. (a. Bernardus Morlanensis; AHMAE, 50, XII)

159v.- O sancta Virgo uirginum / que genuisti Dominum (a. Marbodus Redonensis; AHMAE, 50, p. 395)

160r.- Salue mater Saluatoris / uas electum, uas honoris (a. Adamus a S. Victore?; AHMAE, 54, n.° 245)

161r.- Beatissima Virgo Maria singulariter in hoc mundo rutilauit quadraginta septem annis et tribus mensibus. Duodecimerat annorum quando de Spiritu Sancto concepto.

161r.- Septem gaudia Beate Virginis Marie. Gaudia quibus gaudes / honore(s), uirtutes, laudes / dicam Deo annuente.

161r.- Nullus desperet de misericordia Dei quod bonos aduocatos habemus filium ante patrem, ante filium matrem.

161v.- Antiphona Beate Marie. O gloriosa Dei Genitrix Virgo semper Maria que Dominum omnium meruisti portare.
Alia antiphona. Sub tuum presidium confugimus
.

161v.- Salue mater / regis summi / clausus crater.

161v.- Hynmum Beate Marie. Memento salutis auctor / quod nostri quandam corporis / ex illibata uirgine / [...] Marie, mater grade / mater misericordie.

162r.- Planetas Beate Virginis in parasceue secundum Originem. Quos filie Iherusalem sponse dilecte Dei una mecum lacrimas fundite.

168v.- Ars accentualis penes metra componenda, in qua inueniuntur quedam regule tenentes cum usu ordinis cisterciensis. Sicut philosopho uocabulo uulgari Aristotile appellato, secundo phisicorum capitulo quarto. (a. Prater Martinus Alcobatie Scolaris)

 

 

III.- Transitus Mariae

Entre a literatura apócrifa10 neotestamentária, nascida, como é sabido, ao sabor da imaginação e da piedade, para preencher lacunas de informação deixadas pelas obras canónicas, contam-se os relatos da Dormição de Maria. Dos três conhecidos em meados do século passado11, o número foi aumentando12, sem, que os críticos ousassem, por largo tempo, descortinar um protótipo primitivo13, e só em vésperas da proclamação dogmática da Assunção, B. Capelle assinalaria que «les apocryphes de l'assomption de Marie, fort nombreux, se repartissent en plusieurs familles dont le classement et l'origine commencent à être connus»14. A sua análise levava-o a propor lima hipótese sugestiva: os dois apócrifos latinos mais divulgados, de entre tal literatura, o Transitus do Pseudo-Melitão15 e o anónimo publicado por Dom Wilmart16 estariam directamente relacionados com um texto incluído pelo bispo João deTessalónica, cerca do ano 620, numa carta pastoral em que instituía a festa da Assunção na sua diocese17. Mas, mais do que isso, tanto um como outro texto seriam representantes, independentes, de uma antiga tradução latina de um prototipo grego do séc. VI, de que se servira, mais ou menos literalmente, João de Tessalónica18. As divergências resultariam tanto de uma reelaboração feita pelo Pseudo-Melitão como do resumo executado, para uso litúrgico consignado no Transitus anónimo, onde se teriam vindo a incluir posteriormente glosas marginais tomadas da tradução primitiva. Esta tradução, de que ambos dependan, está mais bem representada pelo Paris. lat. 13781, enquanto que no Colbertinus (Paris. lat. 2672) figura uma outra tradução latina próxima, no tempo, como ela, de João de Tessalónica, e que «é, como Wil., um resumo destinado a uso litúrgico, mas muito mais breve»19.

Com a sua análise, B. Capelle invertia a posição assumida, entre outros, por Martin Jugie, que pretendía ter sido o próprio texto do Pseudo-Melitão a servir de base a João de Tessalónica, e contariava igualmente a opinião de outros que sustentavam a anterioridade do Transitus publicado por Dom Wilmart20.

Esta questão tem aqui obviamente apenas um valor informativo, uma vez que não nos propomos rever o problema, e o texto que o Alcobacense nos apresenta contém afinidades demasiado evidentes com este último Transitus para julgarmos que nos basta deixá-lo neste âmbito; alias, sem outra intenção que não seja a de chamar a atenção dos interessados para o problema e de Ihes fornecer desde já o texto do nosso códice.

Afinidades existem, efectivamente, mas também diferenças e variantes mais largas que todas aquelas que podemos atestar no aparato construído por Dom Wilmart, na base de oito manuscritos que vão do séc. VIII/IX ao séc. XIII. Um exame de tal aparato prova à saciedade a liberdade com que o texto do Transitus foi transmitido. O próprio editor fornece, de resto, uma explicacão: «nous sommes en pleine hagiographie, et l'on a devant soi presque autant de recensions que d'exemplaires»21. Não sendo de surpreender, não deixarà, todavia, de interessar também o isolamento em que teremos de colocar o nosso texto22 que nos aparece como um epítome do Transitus anónimo. A par de variantes e condensações ao longo de todo ele, o texto apresenta também a supressão das duas cenas finais: a do sepultamento e a da assunção. Trata-se efectivamente de uma Dormitio apenas, facto que não passou desapercebido a um utente tardio, o qual acrescentou no final: «et tunc beata Maria migrauit a corpore».

Texto truncado, portanto? A julgar pelo conjunto da tradição que ele parece representar assim o deveremos entender. Noentanto, há pelo menos a reconhecer que o texto apresenta unidade em si mesmo, já que ao anúncio inicial do anjo falta um inciso significativo referente à manifestação gloriosa da assunção, e que na versão de Dom Wilmart é: «ut uideant gloriam tuam quam acceptura es»23. Supressão motivada por perda anterior de uma parte considerável do texto? Supressão intencional, por exclusão voluntaria dessa parte? Apenas podemos constatar que estamos perante um testemunho único, cujo destino e uso nos são desconhecidos. Esta mesma razão nos leva a suspender qualquer juízo relativamente a outras variantes que facilmente se poderão recolher num confronto entre as duas versões24. Uma conclusão global a seu, respeito irá coincidir, em grande parte, com o que, segundo B. Capelle, se poderia concluir, numa primeira aproximacão, a respeito do Transitus Colbertinus: «Le vocabulaire et le style sont, dans l'ensemble, ceux de Wil. Si l'on tient compte des libertés que se permettent souvent les épitomateurs, on serait tenté de ne voir dans les tournures propres à Col. que des variantes rédactionelles du scribe, appliqué à condenser encore ce qui n'était déjà qu'un résumé»25.

 

Alc. 149 [TRANSITUS MARIAE]

[4v] Temporibus illis, cum esset sancta Dei uirgo Maria diebus ac noctibus uigilans et orans post ascensionem Domini uenit ad eam angelus Domini de celo, dicens ei: Maria, surge et accipe palmam quam tibi detuli, quia post tres dies assumam te; et ecce ego Domini apostolos mittam ad sepeliendam te. Respondit beata Maria et dixit ad angelum: Peto, domine, ut dicas mihi quod est nomen tuum. Dicit ei angelus: Cur queris nomen meum quod est mirabile? Audiens hec beata Maria abiit in montem Oliueti perfulcientes26 eam angeli. Et portans palmam illam quam ab angelo susceperat in manibus suis, et nimium exultans, benedicebat Dominum. Angelus autem qui uenerat ad eam cum magno lumine ascendit in celum. Beata uero Maria reuersa est in domum suam, reposuitque palmam quam acceperat cum omni diligentia et exuit uestimenta que induerat et lauit et induit se uestimento, obtimo, et gaudens adorauit dicens: // [5r] Benedico nomen tuum, Domine Deus meus sanctum et laudabile, quod est benedictum insuper et exaltatum in secula. Obsecro itaque inuisibilis Deus ut mittas super me benedictionem tuam ita ut nulla potestas inferni occurrat mihi illa hora qua me iusseris egredi de corpore. Et, hec dicens, misit et uocauit ad se omnes propinquos suos et ait ad eos: Audite nunc uos omnes propinqui et fratres, et credite mihi quia crastina die egredior de corpore, et uado ad Deum meum. Ideoque rogo uos ut unanimes uigiletis et oretis mecum usque in illam horam qua sum recessura. Et dum hec illa exponeret, ecce subito uenit sanetus Iohannes apostolus et cuangelista et percussit ostium domus et ingressus est. Et cum uidit eum beata Virgo turbata est spiritu et lacrimalis sancto dicebat Iohanni: Pater sancte Iohannes, memorare Domini mei et magistri tui preceptis quibus te mihi commendauit in die qua recessit a nobis passurus pro salute mundi. Dixit ad eam sanctus Iohannes: Quid tibi uis ut faciam? Respondit sancta Virgo mater: Nichil a te, apostole, nisi tantum ut corpus meum custodias, et reponas illud in monumentum quia die crastina recessura est anima mea a corpore. Et fleuit in conspectu Domini dicens: Domine, quid sumus quibus demonstrasti tantas tribulationes? Tunc beata Maria uocauit sanctum Iohannem in cubiculo suo et ostendit uestimenta que reponeret in sepultura eius et palmam luminis quam acceperat de manu angeli qui appauerat // [5v] ei et eius assumptionem predixerat. Et dixit ad eum: Rogo te, pater sancte Iohannes, ut hanc palmam de manibus meis accipias et facias eam ferre in lecto meo, cum de corpore fuero assumpta. Respondit ei sanctus Iohannes: Hoc non possum solus, nisi uenerint reliqui apostoli fratres mei, nam hodie in unum sumus congregandi ad redemptum corporis tui. Et cum hec dixisset, egredientibus illis de cubiculo, subito factum est tonitruum magnum, ita ut turbaretur locus et omnes qui aderant. Et sic subito sancti apostoli a nube rapti sunt et depositi27 ante ostium beate Marie. Et uidentes se in unum admirati sunt inter se et salutauerunt se dicentes: Deo gratias, qui nos hodie in hoc loco dignatus est in unum congregare. Tunc uero completum est quod dictum est per prophetam Dauid: Ecce quam bonum et quam iocundum habitare fratres in unum. Et dixerunt alter ad alterum: Oremus Dominum ut notum faciat nobis quid cause sit quod hodie uoluit hora ista in unum congregare. Beatus Petrus dixit: Frater Paule, surge et ora prior quoniam ualde letata est anima mea uidens te. Respondit ei sanctus Paulus: Quomodo ego prior orare possum, cum tu sis colupna luminis, sed et omnes apostoli qui circunstant meliores me sunt. Tu igitur qui nos precedis in apostolatu, ora pro nobis omnibus ut gratia Domini sit nobiscum. Tunc omnes apostoli gauisi sunt de humilitate sancti Pauli. Et statim beatissimus Petrus positis genibus expandit manus et orauit dicens: Domine Ihesu qui sedes super Cherubin et Seraphin, et pro//fundum [6r] abissi intueris, ad te leuamus manus nostras in similitudinem crucis tue, ut tuam requiem accipiamus, quoniam tu das requiem, memor es laboratium, qui omnem superbiam humilias, qui fecisti montes et valles. Tu enim es Domine requies nostra, te propitius inuocamus, qui manes in Patre et Pater in te una cum Sancto Spiritu per omnia secula seculorum. Cumque complesset orationem, ceteri apostoli responderunt: Amen. Tunc sanctus Iohannes euangelista occurrit dicens: Benedicite, fratres. Et dixerunt sancti apostoli Petrus et Andreas: Sancte Iohannes, dilexit te Dominus; ennarra nobis quomodo uenisti hic hodie. Respondit sanctus Iohannes: Audite, fratres, quomodo mihi contigit. Dum essem in ciuitate Ephesorum docens, cum esset hora diei nona, subito descendit nubs in eodem loco in quo eramus congregati serui Dei, et circundedit me et rapuit nie de medio eorum, uidentibus omnibus qui ibidem erant et deposuit me hic. Statim percussi ostium et ingressus sum, et inueni multitudinem populi adstantem circa sororem nostram beatam Mariam adloquentem se de corpore exituram. Ego uero audiens uehementer sum lacrimatus. Nunc ergo fratres audite: si exierit sequenti die de corpore, nolite eam flere ne turbetur populus; sic enim monuit me Dominus et magister noster dum recumberem in cena super pectus eius. Et ideo rogo uos ne uideat nos populus hic plorantes in transitu eius, et incipiant dubii esse dicentes in cordibus suis: ut quid timetis mortem, cum sitis apostoli Dei, et a quibus // [6v] predicatur resurrectio? Sed magis confortemus nos inuicem in Domini promissione, ut omnis populus possit in fide stare firma et non dubius. Hoc dicente sancto Iohanne, omnes pariter apostoli ingressi sunt domum beate Marie et salutauerunt eam dicentes: Aue beata Maria gratia plena, Dominus tecum. Quibus ilia ait: Et uobiscum Dominus sit, fratres; tamen, rogo uos, dicite mihi quemadmodum uos omnes pariter aduenistis hic, aut quis uobis annuntiauit quod exitura essem de corpore. Cui statim sancti apostoli exposuerunt qualiter singuli de locis suis ubi predicabant diuina precepta, in nubibus rapti sunt et ibidem sunt depositi. Tunc beata Maria exultans benedicebat Dominum dicens: Benedico nomen tuum et gloriam tuam, qui dominaris super omnem benedictionem. Benedico habitaculum regni tui, et benedico omnem promissionem tuam quam mihi pollicitus es, ut ad meam uocationem omnes apostolos destinares. Benedico insuper maiestatem tuam qui sanctus es et in Sanctis habitas, et permanes sine fine in secula seculorum. Post hec uocauit beata Maria omnes apostolos et duxit eos in cubili suo, et ostendit eis omnia indumenta sepulture sue. Et cum sanctus fuisset dies tercius in quo erat recessura de corpore, dixit beatissimus Petrus omnibus apostolis et omni populo: Sint nobis, fratres, lampades accense et uigilemus pariter omnes ut cum uenerit Dominus inueniat nos uigilantes et illuminet nos gratia Spiritus Sancti. Nolite sperare dulcissimi hanc uocationem beate Marie esse mortem; non est mors sed uita, quoniam // [7r] preciosa in conspectu Domini est mors sanctorum eius. Et illi hec dicentes, ecce subito lumen magnum refulsit in domo illa, ita ut uix aliquid uiderent pre magnitudine luminis, et uox de celo dicens: Petre, ecce ego uobiscum sum, usque ad consummationem seculi. Tunc beatus Petrus, uoce magna orauit dicens: Benedicimus te illuminatorem seculi, qui omnibus misereris. Et orante Petro, omnes apostoli corroborati sunt in fide. Exurgens autem beata Maria abiit foras orare orationem quam orabat postquam eius assumptionem apostolus ille predixerat. Et post completam orationem introiuit in domum et discubuit super lectum suum. Sedebat ad caput eius beatus Petrus, et in circuitu lectuli ceteri apostoli. Circa autem horam diei terciam, tonitruum magnum factum est et odor suauitatis ita emicuit ut pre eius suauitate omnes obdormirent qui ibi aderant, exceptis apostolis et tribus uirginibus quibus mandauerat ut sine intermissione uigilarent et testificarentur de illa gloriam assumptionis eius in qua assumpta est. Et dormientibus illis subito uenit Dominus Ihesus Christus in nube cum multitudine angelorum et ingressus est domum in qua mater eius semper Virgo Maria iacebat. Et inuenit sanctos apostolos circa lectum eius cum lampadibus uigilantes. Beata uero Maria benedixit Dominum dicens: Benedico te, sancte Pater, quia que promisisti mihi prestitisti. Non enim tantam gratiarum actionem, Domine, nomini sancto tuo ualeo // [7v] defferre, quanta in me conferre dignatus es. Et postquam compleuit orationem suscepit animam eius et tradidit eam sancto angelo Michaeli candidam septies quam nix, habentem similitudinem hominis. Tunc beatus Petrus interrogauit Dominum dicens: Domine, quis de nobis habet animam candidam sicut beata Maria? Et dixit Dominus ad eum: Omnes anime que de sacro lauacro lote procedunt tales sunt; cum autem de corpore exeunt, non omnes inueniuntur tales ut uidisti animam Marie. Iterum dixit ad sanctum Michaelem: Suscipite corpus eius et ingredimini in dextera ciuitatis Iherusalem, et inuenietis ibi monumentum nouum in quo honorifice cum hymnis et canticis, manibus uestris collocate eum, et custodite eum omnes. Sepulchrum eius sanctum mandaui uobis. Ista dum illis exponeret, exlamauit corpus beate Marie coram ipso dicens: Memor esto mei o pastor bone, quoniam custodiui mandatum tuum



 

IV.- Os Milagres

O Index Miraculorum B. V. Mariae quae saec. VI-XV latine conscripta sunt, organizado no começo do século pelo bolandista Alb. Poncelet28, com os seus 1738 milagres registados29, é um elenco deveras elucidativo da diversidade apresentada pela literatura miraculista marial naqueles séculos. Tanto mais impressionante, de resto, quanto o próprio autor considerava tal índice incompleto (postea perficiendus)30, e haverá que contar com as versões em língua vernácula. O número de legendas mariais que circulavam na Idade Média dòve ultrapassar, na verdade, os dois mil.

Um factor igualmente a considerar é que a distribuição de tais narrativas não se faz uniformemente ao longo desse período histórico. Com sintetiza Evelyn Faye Wilson: «As early as Gregory of Tours (c. 538-594) eastern tales of this nature begin to be narrated by ecclesiastical'writers in the West. In his Liber miraculorum, the first book of which is entitled In gloria martyrum, he tells, among a number of others, six legends of eastern origin. It is, however, not much earlier than the eleventh century that tales of western origin make their appearance in written form in significant numbers»31.

O Index de Alb. Poncelet assenta no trabalho de eruditos e pesquisadores de bibliotecas como Henry L. D. Ward32 e A. Mussafia33. Segundo as conclusões deste último34, é possível distinguir na origem desta proliferação de legendas marianas três séries fundamentais que vão recebendo seguidamente um desenvolvimento e um alargamento cada vez maiores. A mais antiga série é constituída pelo grupo conhecido pelas iniciais HM, ou seja, Hildefonsus-Murieldis, nomes que identificam a primeira e a última das legendas de um conjunto de dezassete35, cuja origem remonta a vidas de santos ou a narrativas monásticas repartidas por uma vasta região geográfica. Esta série antiga existe em moldes mais ou menos completos, embora com ordem seqüencial diversa, em quase todas as grandes compilações.

O mesmo não acontece com a série relativa aos elementos naturais, em que o tema é o poder de María sobre o fogo, a terra, a água, o ar, e que compreende substancialmente quatro legendas, as quais apenas nas compilações inglesas, ou outras com elas relacionadas, aparecem em grupo unitário.

A terceira série engloba outro conjunto de dezassete legendas e é designada pelas iniciais TS que se reportam directamente ao conteúdo da primeira (Toledo) e da última narrativa (Sábado).

Da conjugação destas três séries e aproveitamento de alguns outros milagres avulsos tomados de várias fontes resultou a chamada compilação de Pez.

Estas quatro compilações estão na origem das restantes divulgadas na Europa no decurso dos séculos XII e XIII36. Celebram essencialmente a Mater misericordiae e são um testemunho eloquente do culto e da piedade marianos divulgados primeiro pelas Ordens monásticas de Cluni e de Cister, pelos Vitorinos logo depois, e em seguida pelas Ordens mendicantes. A estes mesmos factores cm conjugação com elementos dos mais diversos, locais ou importados, populares ou literários, ocidentais e orientais, há que atribuir o aumento sempre crescente das legendas que vão sendo fixadas nos Mariais contemporâneos. Enquanto a compilação de Pez, que remonta ao séc. XII, abrange 43 milagres, o Ms. Paris, Bibl. Nationale 14463, poucas dezenas de anos mais tarde, conta 77, o Ms. Paris. Bibl. Nationale 12593, que data de cerca do ano 1200, apresenta 105, e as Cantigas de Santa María elevara para 350 tal número.

O Alc. 149, se excluirmos o Libellus de Miraculis B. M. Virginis in urbe Suessionensi, fornece-nos uma compilação de apenas 49 milagres, o último dos quais está separado dos restantes justamente por aquela obra de Hugo Farsito37. Dois deles (os n.os 46 c 47 da ordem) pertencem a Guiberto de Nogent38. O número é pois relativamente baixo, se comparado com outras compilações, mas por isso mesmo é já de atender, enquanto pode documentar um estado mais antigo da tradição.

Será assim de notar, em primeiro lugar, que os 17 primeiros milagres representam a série HM, na mesma ordem que nos é transmitida pela compilação de Pez. Outras coincidências menores com esta colecção estendem-se a um número semelhante de milagres, sendo de salientar aí, pelo menos, a correspondência entre dois pequeños grupos: um, constituído pelos n.os 22-26, de ambas as séries, e outro, em que os n.os 28-30 do Alcobacense correspondem aos n.os 27-29 de Pez.

Se a correspondência directa da compilação de Pez fica comprometida, menor é a relação que se poderá descobrir com a série TS, muito embora tenhamos representada uma dúzia de milagres nela incluídos (como sejam o primeiro e o último que servem para identificar a série) e não obstante termos uma sequência (de 33 a 37) que corresponde a outra daquela série (n.os 2 a 6).

As afinidades, porém, surgem mais abundantes com um grupo de tres manuscritos APM, ou sejam39:

A = Ms. British Museum Arundel 346 - séc. XII;
P = Paris, Bibliothèque Nationale 18168 - séc. XII;
M = Montpellier 146 - séc. XII/XIII.


      
Acontece, na verdade, que são coincidentes nas duas séries Alc.: 1-19 = APM 1-19; Alc. 21 = APM 22; Alc. 33-44 = APM 23-34. Não entram em correspondência os n.os 20, 22-32 e 45-48 do Alcobacense (dos quais, de resto, os n.os 46 e 47 apresentam menor relevância por terem origem conhecida, ou seja a obra de Guiberto de Nogent). Entre eles, conta-se um por demais conhecido e divulgado que é o milagre de Teófilo.

Um número tão elevado de correspondências, porém, terá de supor necessariamente fontes comuns utilizadas de formas diferentes. Até que ponto haverá que atribuir ao compilador do nosso códice tal iniciativa? Tentemos pelo menos uma resposta a esta questão pela negativa, utilizando para tal um índice que não deixará de ser tomado como importante pelos próprios romanistas.

Um aproximação com os Milagros de Nuestra Señora, de Gonzalo de Berceo40, dá-nos seguramente a entender que a intervenção de tal compilador se pode considerar diminuta. Relativamente à série de Pez, Berceo elimina alguns milagres. Há todavia algo que podemos concluir do confronto entre Berceo e o Alcobacense: com eliminações, ou sem elas, por parte de Berceo, relativamente a uma fonte latina, as alterações de ordem, sobre uma fonte supostatemente primitiva, mantêm-se idênticas entre Berceo e o Alc. 149 até ao n.° 33 deste, com uma única discrepância constituída pelo milagre 25 de Berceo. Sendo esta narrativa (referente à igreja roubada em Cohinos, no tempo do rei D. Fernando III, o Santo 1217-1252) fortemente localizada não se estranhará que proceda de fonte conhecida de Berceo e não de outros compiladores. A conclusão a extrair de tal aproximação poderá ir em duplo sentido: o Alcobabacense apresenta uma sequência que, coincidindo pontualmente com outras, deixa adivinhar o estado das fontes de que depende e pode ser tomado com resultado de interpolações e combinações várias (conjugando compilações anónimas e assinadas -Guiberto de Nogent, Hugo Farsito-); por outro lado, a coincidência com Gonzalo de Berceo obriga a supor uma fonte comum a ambos, ainda que pouco possamos assentar sobre o número contido na compilação utilizada por Berceo e a liberdade com que este trabalhou. Um e outro são o elo de uma cadeia cujos pontos terminais não é fácil descortinar41.

Para melhor se ajuizar das correspondências apontadas, observe-se o quadro que a seguir se elabora42.

 

 

Alc.. 149

Berceo

Pez-HM

TS

APM

1.

Idelfonso

1

1

 

1

2.

Sacristão impúdico

2

2

 

2

3.

O clérigo e a flor

3

3

 

3

4.

O clérigo premiado

4

4

 

4

5.

O pobre caritativo

5

5

 

5

6.

Ladrão devoto

6

6

 

6

7.

O monge e S. Pedro

7

7

 

7

8.

O romeiro de Santiago

8

8

 

8

9.

O clérigo ignorante

9

9

 

9

10.

Os dois irmãos

10

10

 

10

11.

O lavrador avarento

11

11

 

11

12.

O prior e o sacristão

12

12

 

12

13.

O novo bispo de Paiva

13

13

 

13

14.

Paño purificado

14

 

14

15.

Imagem respeitada pelo fogo

14

15

 

15

16.

Casamento abandonado

15

16

 

16

17.

Murieldis

17

 

17

18.

Judeu de Bruges

16

31

 

18

19.

Igreja profanada

17

12

19

20.

Aumento de provisões domésticas

 

1

21.

Toledo

18

1

22

22.

Parto rama tempestade

19

22

 

 

23.

Clérigo embriegado

20

23

8

 

24.

Criança ressuscitada

24

 

 

25.

Bispo S. Dunstano

25

 

 

26.

Bispo S. Dunstano

26

 

 

27.

Abadessa grávida

21

36

 

 

28.

Náufrago libertado

22

27

 

 

29.

Tempestade acalmada

28

 

 

30.

Monge que não rezava Completas

29

 

 

31.

A dívida paga

23

33

 

 

32.

Teófilo

 

 

 

 

33.

Doente de Vivaria
Igreja roubada


25

18

2

3

34.

Musa

 

 

3

24

35.

Mãe de misericórdia (sicut it.)

 

 

4

25

36.

Libia

 

20

5

26

37.

Getsemani

 

21

6

27

38*.

Doente curado com leite de Maria

 

30

11

28

39*.

Monge falecido súbitamente

 

 

 

29

40*.

Monja chora perda da virgindade

 

41

 

30

41*.

Esposa e amante reconciliadas

 

 

 

31

42*.

Clérigo libertado de paixão

 

 

 

32

43*.

Bispo celebra só

 

 

 

33

44.

Imagem da Virgem insultada

 

 

7

34

45.

Sábado dedicado à Virgem

 

42

17

 

46.

Milagre em Quiviaco

 

 

 

 

47.

Pé cortado e sarado

 

 

 

 

48.

Cavaleiro rico

 

 

 

 

49.

HUGO FARSITO

 

 

 

 

78.

Criança curada em Espira

 

 

 

 

 

N. B. Os números assinalados com asterisco apontam para narrativas em verso.



 

V.- Corpus rythmicum marianum

Mais que os restantes textos do Alc. 149, fbram os poemas marianos nele incluídos objecto da atenção de Fr. Fortunato de S. Boaventura43, a quem; de resto, não passara desapercebido o trabalho de valorização da poesia rítmica medieval encerado por Policarpo Leyser44.

Do conjunto de poemas deste códice, quatro foram publicados por aquele erudito cisterciense nos seus Comentários: 1) Sicut pratum picturatur; 2) Madens vellus Gedeonis; 3) Salve Mater Salvatoris; 4) Virgo splendens quae transcendens45. Ao fazer tal publicação, a sua intenção mais directa era contribuir para a divulgação do corpus de Adão de S. Vítor, a quem julgava se deviam atribuir pelo menos a maior parte destes poemas.

A verdade é que as dúvidas de autoría que Fr. Fortunato encontrava enunciadas em obras como as de Francisco Antonio Zacarías46 subsistem ainda hoje, e é a Bernardo de Morías (também dito de Cluni) e não ao Vitorino que se devem nada menos de sete dos 21 poemas que aqui encontramos. A este apenas três, e ainda sem uma certeza indubitável, poderão ser atribuídos. De um seu confrade, Godofredo de S. Vítor (ou de Breteuil), conserva-se aqui também um poema; e de autores conhecidos somente há a assinalar mais a presença de Marbodo de Reimes (ou de Angers). Os nove poemas restantes são de autores desconhecidos; 4, sem atribuição reconhecida, e 5 nem sequer os encontramos registados nas obras de referência47.

Se este último facto pode assumir alguma importância, igualmente haverá que atribuí-la ao corpus de Bernardo de Morlas aqui existente. Chamará imediatamente a atenção que a sequência de tais poemas mantenha, salvo uma excepção, a ordem usual na transmissão daquele autor48. Isto supõe certamente uma certa disciplina no trabalho de cópia do nosso códice, neste particular. O facto, porém, de o rythmus XII aparecer já deslocado e de surgirem de premeio outros poemas cuja atribuição a Adão de S. Vítor é das menos controversas de entre os que correm sob o seu nome, pode levar-nos a crer também que à data da redacção do Alcobacense já o nome do Vitorino se estendia a obras de outros autores. Repare-se todavia que não há aqui atribuição de autoría e o compilador apenas atendeu ao tema mariano.

Compilação primitiva? Apesar da data a que teremos de fazer remontar o nosso códice (seguramente o séc. XII/XIII) não é fácil reconhecer nem impugnar tal carácter, muito embora tenhamos de verificar que a nossa copia está prejudicada, relativamente à tradição manuscrita de Bernardo de Morías, por acidentes codicológicos, que, porventura, já teriam ocorrido no modelo de que depende. Registam-se efectivamente variantes que apontam nesse sentido. O ritmo III (O cunctarum) perde 7 estrofes (27-33) para o ritmo V (Mater Christi) e vai buscar 2 estrofes a outros (est. 27, de origem não identificada; est. 28, do rit. IV - Salutaris, Stella maris). O ritmo V, porém, não vê aumentadas, mas apenas substituídas 6 estrofes (35-41), dado que estas passam a figurar no ritmo IV (28-33). A correspondência material de falhas deixa perceber fácilmente um acidente codicológico no modelo (deficiência de dobragem ou de encartamento), acidente que pode explicar as variantes.

Notam-se igualmente nos poemas correcções várias, por substituição. Isso revela (e, nalguns casos, pode confirmar-se pela tradição manuscrita) a existência de códices com leituras divergentes, se não logo no scriptorium de redacção, pelo menos nos locais em que o códice foi utilizado. Uma e outra hipótese retiram ao nosso códice o isolamento que mantém no actual Fundo Alcobacense49.

No aparato que criamos para a edição que a seguir se apresenta pomos em confronto a lição acolhida pelos AHMAE, e procuramos simultaneamente apontar os códices ai registados que coincidem com o nosso. Considerámos excessivo, e sem um interesse imediato, descrever aqui as correspondências de códigos codicológicos tomados dos AHMAE, e não o fazemos senão num ou noutro caso. Todavia, pelo menos para o conjunto do corpus de Bernardo de Morlas notar-se-ão fácilmente as afinidades com um cerro número de códices; assinalaremos complementarmente que esse grupo é de origem francesa e está identificado como pertencendo ao séc. XII, ou, o mais tardar, ao séc. XIII. Este dado vem confirmar outros apontados anteriormente e revela uma vez mais a importância e a dependência geográfica do nosso códice.

 

Résumé

Il existe au Fonds d'Alcobaça de la Bibliothèque Nationale de Lisbonne un Mariale (Alc. 149) du XII/XIIIème siècle, quasi méconnu des érudits. Seul Fr. Fortunato de S. Boaventura lui a accordé quelque intérêt au commencement du siècle dernier. Il s'agit pourtant d'un document remarquable, dont on peut relever, parmi bien d'autres pièces, trois noyaux fondamentaux: a) un Transitus Mariae; b) Miracula B. Mariae Virginis; c) un Corpus Rythmicum Marianum.

Le Transitus peut être rattaché au Transitus publié en 1933 par Dom André Wilmart, dont le nôtre représente, à quelques variantes près, un abrége, avec des suppressions significatives concernant l'Assomption de la Vierge.

Une série de 49 Miracula, dans un total de 78 (parmi lesquels l'ouvrage de Hugues Farsite, Libellus de Miraculis B. M. Virginis in urbe Suessionensi), présente des affinités très nettes avec une autre série documentée dans un groupe de trois manuscrits designés par les sigles APM, soit, A, Ms. British Museum Arundel 346 (XIIème siècle.), P, Paris, Bibliot. Nat. 18168 (XIIème sc.), M, Montpellier 146 (XII-XIIIème sc). Cependant, on peut remarquer a l'Alc. 149 une fidelité plus grande à conserver les miracles des collections primitives, notamment ceux de la collection Pez-HM. Encore l'identité avec la serie des Milagros de Nuestra Señora, de Gonzalo de Berceo, n'est-elle guère perturbée que par l'insertion dans notre manuscrit de quelques autres miracles (presque tous présents à Pez-HM) et l'absence, explicable, du miracle 25 de Berceo. De plus, la reproduction presque intégrale (à l'exception de deux miracles) de l'ouvrage de Hugues Farsite à l'Alc. 149 fournit, par rapport aux autres témoins de la tradition manuscrite des miracles de la Vierge (par ex., le Copenhague Thott 128), un indice de fidelité dans la transcription des modèles.

Le Corpus Rythmicum Marianum est constitué par 22 poèmes, dont 7 appartiennent sûrement à Bernard de Morlas, 3 sont attribués traditionnellement à Adam de Saint-Victor, 1 à Godefroid de Saint-Victor, 1 à Marbode de Rennes, et les 10 autres n'ont pas d'auteur reconnu, mais 6 ne sont pas enregistrés aux oeuvres habituelles de référence; on publie ici ces poèmes, tout en adoptant un apparat critique pris aux AHMAE.

Les aspects matériels de l'Alc. 149 font l'object d'une analyse codicologique détaillée, à travers laquelle on peut reconnaître les caracteres soit hétérogènes soit unitaires du manuscrit et déduire ses couches primitives. En effet, on est amené à distinguer un ensemble central primitif (du XII/XIIIème siecle) constitué par des mains differentes et auquel on a ajouté plus tard (au moment, peut-être, ou l'on a fait la reliure actuelle) une autre unité codicologique (un quinion) matériellement différente, bien que semblable, au moins en partie, pour le contenu.

 

 

Notas

 

Trata-se de facto, de uma peça estranha ao conjunto, felizmente assinada por Frater Martinus scolaris Alcobatie. Embora não datado, tal texto terá sido redigido e copiado possivelmente em inícios do séc. XV, e tal vez ainda antes de o caderno a que pertence estar associado ao elenco actual. Está atestada, efectivamente, no começo deste século a existência de um Fr. Martinho de Alcobaça (possivelmente o mesmo que Fr. Martinho de Aljubarrota, já que as datas coincidem) que copiou os códices Alc. 387, 231 e 281, e que em 1410 era Mestre de Noviços (Alc. 281, fol. 42v).

EVELYN FAYE WILSON, The Stella Maris of John of Garland, Cambridge Mass., 1946, p. 30-31. 

É conhecida de entre as narrativas de milagres uma em que se refere a aparição da Virgem a um monge, gratificando-o pelo cuidado sempre posto por ele em escrever o nome de Maria. Constitui o n.° 384 das Cantigas de Santa Maria e está registado em várias compilações de milagres. Cfr., entre outros, o estudo de T. F. CRANE, «Miracles of the Virgin», The Romanic Review, 11, 1911, pp. 235-279, particularmente p. 258, onde se transcreve tal narrativa.

Não deixaremos de apontar que as obras de referência nem sempre constituent base inequivocamente segura para uma informação correcta e completa. Para as composições poéticas, por ex., esperar-se-ia que a obra de HANS WALTHER, Initia Carminum ac uersuum Medii Aeui posterioris latinorum, Gotinga, 1969, fornecesse o incipit de todos os binos que figuram cm U. CHEVALIER, Repertorium hymnologicum, Lovaina-Bruxelas, 1892-1920. Embora a dependência seja patente, tal não acontece, e, para alguns hinos publicados posteriormente à obra de U. Chevalier tivemos que recorrer à consulta dos índices individuais nos 55 vols. dos Analecta Hymnica Medii Aevi, ed. G. Dreves-C. BIume-H. Bannister, Lipsia, 1886-1922. O recurso suplementat a B. HAURÉAU, Initia Scriptorum Operum Latinorum, rep. an., Turnhout, 1978, não supriu a informação que procurávamos. Os milagres podem todos eles ser referenciados em ALB. PONCELET, «Miraculorum B. V. Mariae quae sacc. VI-XV latine conscripta sunt Index», Analecta Bollaudiana, 21, 1902, p. 241-360 (adiante faremos referência a este índice pela sigla MBVM) e na Patrologia Latina, para Hugo Farsito. Sublinhe-se igualmente o injustificado esquecimento com que os editores têm tratado o Fundo Alcobacense. Se não existe um Catálogo plenamente adequado (o vol. de Indices constituído em 1978 para o Inventário dos Códices Alcobacenses, Lisboa, 1930-33, não pretendeu suprir as deficiências, mas apenas ordenar um material disperso), já Fe. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA, nos seus Commentariorum de Alcobacensi manuscriptorum Bibliotheca Libri Tres, Coimbra, 1828, fizera uma apresentação sobejamente elucidativa do valor do Fundo Alcobacense e publicara, inclusive, quatro dos poemas deste códice. De resto, o facto de tal obra ter sido redigida em latim punha ao alcance dos investigadores uma informação abundante, mesmo quando necessitada de revisão.

Esperamos ocupar-nos deste assunto noutra oportunidade.

Tenha-se presente o que deixamos dito a seu respeito na nota n.° 1.

Cfr. EVELYN FAYE WILSON, Op. cit., p. 12 ss.

Analecta Bollandiana, XXI, 1902, p. 241-360.

AHMAE, ed. G. M. DREVES - C. BLUME - H. M. BANNISTER, Lipsia, 1886-1922 (= Nova Iorque / Londres, 1961), 55 vols.

10  Segundo o Decretum Gelasiannum, há que entender por apócrifo um livro não reconhecido pela Igreja, e por isso de autoridade contestável, e não propriamente uma obra pseudo-epigráfica, já que sob aquela designação entravam obras de autores coriheddos como Tertuliano, Lactâncio, etc.

11  C. TISCHENDORF, Apocalypses apocryphae, Lipsia, 1866.

12  A Bibliotheca Hagiographica Latina, Bruxelas, 1902, regista sete; M. JUGIE, La mort et l'assomption de la Sainte Vierge [Étude historico-doctrinale), Cidade do Vaticano, 1944, refere-se a uma vintena. É de ter em consideraçãó particularmente o cap. III desta obra, «La littérature apocryphe sur la mort et l'Assomption de la Sainte Vierge», p. 102-171.

13  Pertence a M. Jugie a afirmação de que «as divergências existentes entre eles são tão numerosas, tão grande é a liberdade dos narradores, mesmo quando têm na frente um modelo, que seria perder tempo querer reduzi-los à unidade». Op. cit., p. 105.

14  BERNARD CAPELLE, «Vestiges grecs et latins d'un antique 'transitus' de la Vierge», Anacleta Bollandiana, 67, 1949 (Mélanges Paul Peeters - 1), p. 21.

15  P. G. 5, col. 1231-1240.

16  DOM ANDRÉ WILMAKT, Analecta Reginensia - Extraits des manuscrits latins de la Reine Christine conservés au Vatican, Cidade do Vaticano, 1933 (rep. an. 1966), «L'ancien récit latin de l'Assomption», p. 323-362.

17  Ed. M. Jugie, in Patrologia Orientalis, XIX, p. 344-438, «Homélies mariales bizantines - X. St. Jean archevêque de Thessalonique, Discours sur la Dormition de la Sainte Vierge».

18  Esse protótipo, segundo juízo de B. Capelle, «está muito próximo de outro grupo de relatos, os mais antigos dos quais estão representados por manuscritos siríacos do séc. V e por certos relatos irlandeses», Loc. cit., p. 43.

19  Ibid., p. 37.

20  Dom Wilmart supõe ser esse o texto condenado pelo Decreto Gelasiano, mas B. Capelle nega semelhante hipótese.

21  Loc. cit., p. 324. O fenómeno não é único e era facilitado, como noutros casos, pelo carácter anónimo do texto.

22  Faremos notar que as afinidades com um outro Transitus anónimo publicado por B. Capelle, loc. cit., p. 44-48 são totalmente genéricas.

23  Retenha-se todo o passo para confronto com o do nosso códice: «Et ecce ego mittam omites apostolos ad te sepeliendam, ut uideant gloriam tuam quam acceptura es». Note-se que sepeliendam não está atestada em todos os testemunhos e que falta no nosso texto um inciso que não figura também en G (Saint Gall, Stiftsbiblioteke, n.º 732, fol. 115-142 - sec. IX). Ma aí trata-se de uma supressão sem correspondência com o resto do texto, já que persistem a cenas finais.

24  Comparem-se para termo de referência as variantes da primeira unidade de Dom Wilmart com as do nosso Alcobacense:

Wilm

Alc.

In illo tempore

Temporibus illis

beata Maria

sancta Dei Virgo Maria

uenit ad eam angelus Domini dicens quo-

[...] angelus Domini de celo dicens ci

niam post tres dies adsumenda es

quia [...] assumam te

ego mittam omnes apostolos ad te sepeliendam

ego Domini apostolos mittam ad sepe-

ut uideant gloriam tuam quam acceptura es

liendam te

Faremos notar que, embora sempre nos tenhamos referido atrás a Dom A. Wilmart como editor do Transitus anónimo, ele fora anteriormente publicado também por DOM MARIO FÉROTIN, Le Liber mozarabicus sacramentorum et les manuscrits mozarabes, Paris, 1912, coll. 780-795.

25  Loc. cit., p. 37. Não se tome, todavia, este parágrafo como correspondendo ao juízo de B. CAPELLE relativamente ao Colbertinus. Repare-se, efectivamente, na continuação do seu texto: «Mais certaines leçons originales s'opposent à cette trop simple interprétation. Plusieurs fois Col. nous livre des détails absents de Wilm. et qu'on découvre, non sans surprise, chez Jean de Thessalonique».

26  ms.: perfulgientes.

27  ms.: rapti, deposuit ante ostium.

28  Analecta Bollandiana, 21, 1902, pp. 241-360.

29  Ainda que haja a descontar as entradas dos prefácios que também são contabilizadas, haverá, em contrapartida, que incluir no número total aqueles milagres que, por qualquer circunstância, figuravam já na Biblioteca Hagiographica Latina.

30  Não será difícil aumentar o elenco. O Alc. 39 fornece vários exemplos de Milagres de Nossa Senhora de Rocamador não registados ali. Cfr. MÁRIO MARTINS, «O Livro de Milagres da Bem-Aventurada Virgem Maria», Brotéria, LXX, 1960, p. 517-532. Se nos voltarmos para as narrativas em língua vulgar, o leque tendería a abrir mais ainda.

31  EVELYN FAYE WILSON, The Stella Maris of Jolm of Garland (edited, together with a study of certain collections of Mary Legends made in Northen France in the twelfth and thirteenth centuries), Cambridge Mass., 1946. Tomamos particularmente este estudo como obra de referência na ausência de outras menos acessíveis.

32  H. S. D. WARD, Catalogue of Romances in the Department of Manuscripts in the British Museum, Londres, 1883 e 1893.

33  A. MUSSAFIA, Studien zu den mittelalterlichen Marienlegenden, publicados em Stizimgsberichte der kaiserlichen Akademie der Wissenschaften in Wien, 113, 1886, p. 917-994; 115, 1887, p. 5-93; 119, 1889, p. 1-66; 123, 1890, p. 1-85; 139, 1898, p. 1-74.

34  Cfr. E. F. WILSON, op. cit., p. 4 ss.

35  Publicado já no séc. XVIII por BERNHARD PEZ, Venerabilis Agnetis Blannbekin... vita et revelationes auctore anonymo... Accessit Pothonis Prunveningensis prope Ratisbonam O.S.B. liber de Miraculis S. Dei Genitricis Mariae, Viena, 1731. Saliente-se que a autoria atribuída por B. Pez não é certa pois Potho ou Botho, monge de Priefling, não é mais que o autor de uma única narrativa, como Mussafia havia de provar.

36  E. F. WILSON, op. cit., p. 5.

37  Faltara neste opúsculo de Hugo Farsito (composto em meados do séc. XII) os milagres XXIX e XXX registados na PL. 179, col. 1776-1800.

38  Cfr. PL, 156. col. 546-568 e 568-572.

39  A informação é tomada, uma vez mais, de E. F. WILSON, op. cit., p. 17 ss.

40  Gonzalo de Berceo, Milagros de Nuestra Señora, ed. y notas de A. G. Solalinde, Madrid, 1958.

41  Embora esperemos estudar este aspecto de forma mais directa, não deixe de se assinalar quanto o nosso códice tem de importância para fundamentar a existência de uma fonte latina de que Berceo depende.

42  No sumário do conteúdo do códice, pode observar-se que nenhum dos milagres é exclusivo do Alcobacense pois se encontra em outras fontes. Correspondências isoladas podem encontrar-se no Speculum Historiale de VICENTE DE BEAUVAIS, em GIL DE SAMORA, na Legenda Dourada, entre outros.

43  Fr. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA. Commentariorum de Alcobacensi monasterio Manuscriptorum Libri tres, Coimbra, 1827, p. 29-42.

44  No texto, sintetiza: «Quidquid de poesia rythmica, per multos prorsus reicienda, per multos etiam non infimae sortis scriptores plurimi facienda sentiantur, illud tamen pro certo habendum est, nempe in his rythmis, non tantum verborum elegantiam, sed praecipue rerum sublimitatem perpendendam». E já em nota remete para Policarpo Leyser, De ficta medii aevi barbarie, in primis circa poesim latinam, eiusdemque in medii aevi poetarum collectionem praefatio. Cfr. op. cit., p. 30.

45  Ocupam as pp. 31-42 dos Commentariorum [...]

46  De quem cita a Bibliotheca Ritualis, Roma, 1776.

47  São eles: 1) Angelorum et celorum dominatrix; 2) Summi regis factura; 3) Gaudia quibus plus gaudes; 4) Salue mater regis summi; 5) Memento salutis auctor. Chamamos, no entanto, a atenção para a precaridade das obras de referencia, como, de resto, já o fizemos mais acima.

48  Tal ordem é a que se mantém nos AHMAE, vol. 50.

49  Tal isolamento é, evidentemente, relativo, e, dentro da informação que nos foi transmitida sobre a Livraria de Alcobaça não pode ser afirmado nem negado com provas suficientes. Seja-nos permitido, quanto a esta materia, remeter para o nosso ensaio «Em busca dos códices Alcobacees perdidos», Didaskalia, vol. IX (1979), fasc. 2, pp. 279-288.

50  Imperatrix Reginarum AHMAE, 20, n.° 197, Chev. 8491.


 

 

 

 

Um «Mariale» Alcobacense

  AIRES A. NASCIMENTO

 

 

Didaskalia. Revista de la  Facultad de Teologia de Lisboa 1979, vol. 9, no2, pp. 339-411